quarta-feira, 6 de maio de 2009



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- Vamos brincar de pega-pega?
- Vamos! Com quem q tá?

- Comigonãomorreeeu!

- AAAAh, tá com você!
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Em um domingo completamente comum, estava entretida com a ala infantil no quintal da nossa avó (clichê não?), até que algo me chama a atenção... era um olhar perplexo, nitidamente direcionado a mim, que não vinha de nenhum dos baixinhos, e sim do outro lado, ao pé da escada onde ele estava lá, parado, boquiaberto: um adulto. Hesitei alguns momentos até entender o que havia errado comigo para despertar tal olhar, mas mal eu tinha compreendido e ele se tornou divertido. Isso somado a um leve movimento de negação da cabeça... tudo virou um tipo de desaprovação engraçada... Ruborizei quando a compreensão finalmente chegou. Por alguma razão, me senti mal, aquele tipo de vergonha que dá quando eu falo alguma coisa pessoal demais acidentalmente na frente de pessoas que não deveriam estar ouvindo aquilo... constrangedor.

Como eu não tenho força de vontade nenhuma para conseguir parar de brincar com crianças, deixei pra lá naquele momento. Mais tarde, ainda na casa, quase todos cochilavam, inclusive os pequenos, exceto eu. Aquela cena da manhã veio à mente.Que mundo é esse em que vivemos, em que um adulto brincando bobo e feliz é olhado incredulamente, quando pais matando seus filhos são vistos com nada vez mais naturalidade no jornal da noite? Que lugar é esse que políticos roubando descaradamente o dinheiro público são menos esquisitos do que um adulto se lambuzando enquanto come um doce sentado no tapete da sala?
Nos tornamos todos homens civilizados caminhando por aí. Mas todos de olhos vendados, preocupando-se somente com os próprios tombos, seguindo em linha reta.

Nossa única e solitária linha reta.

Aprendemos como nos portar diante do mundo, aprendemos todas as regras, o que é certo e o que é errado, português, matemática, química, geografia... E desaprendemos a escutar, a se expressar, a tentar fazer a diferença... "Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado...". Vemos coisas ultrajantes, ofensivas, deploráveis... isso realmente nos toca de alguma forma... mas o que fazemos a seguir? Mudamos de canal, mudamos de assunto, ou simplesmente encerramos com alguma piadinha. Esse conformismo impulsiona cada um dos vendados em direção a um abismo. O que falta para tirar essa venda de uma vez por todas? Estamos esperando um sinal? Quando começar a ventar muito nessa escuridão cega, é tarde demais. Você está caindo no abismo.
Não sou muito a fim de ventos fortes. Registro aqui minhas tentativas de romper esse nó da faixa que obscurece minha visão, para me tornar realmente consciente, e pegar pela mão quantos eu puder para arrancar quantas vendas meus braços alcançarem e ser livre para brincar de pega-pega, ver Chaves e sujar a cara toda de brigadeiro... em um lugar que brincar é normal e matar e roubar é incomum...

sábado, 10 de janeiro de 2009

Eu e Tu




- "O mundo é duplo para o homem, segundo a dualidade de sua atitude.
A atitude do homem é dupla de acordo com a dualidade das palavras-princípio que ele pode proferir.
As palavras-princípio não são vocábulos isolados, mas pares de vocábulos.
Uma palavra-princípio é o par EU-TU. A outra é o par EU-ISSO no qual, sem que seja alterada a palavra-princípio, pode-se substituir ISSO por ELE ou ELA.
Deste modo, o EU do homem é também duplo.
A palavra-prinícipio EU-TU só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade.
A palavra-princípio EU-ISSO não pode ser jamais proferida pelo ser em uma totalidade.
Aquele que diz TU não tem coisa alguma por objeto. Pois, onde há uma coisa há também outra coisa; cada ISSO é limitado por outro ISSO. Na medida em que se profere o TU, coisa alguma existe. O TU não se confina a nada. Quem diz TU não possui coisa alguma, não possui nada. Ele permanece em relação."

- "Eu considero uma árvore.
Posso apreendê-la como uma imagem. Coluna rígida sob o impacto da luz, ou o verdor resplandescente repleto de suavidade pelo azul prateado que lhe serve de fundo.
Posso sentí-la como movimento: filamento fluente de vasos unidos a um núcleo palpitante, sucção de raízes, respiração de folhas, permuta incessante de terra e ar, e mesmo o próprio desenvolvimento obscuro.
Eu posso classificá-la numa espécie e observá-la como exemplar de um tipo de estrutura e vida.
Eu posso dominar tão radicalmente sua presença e sua forma que não reconheço mais nela senão a expressão de uma lei, de leis segundo as quais um contínuo conflito de forças é sempre solucionado ou de leis que regem a composição e a decomposição das substâncias.
Eu posso volatilizá-la e eternizá-la, tornando-a número, uma mera relação numérica.
A árvore permanece, em todas estas perspectivas, o meu objeto tem seu espaço e seu tempo, mantém sua natureza e sua composição.Entretanto pode acontecer que simultaneamente, por vontade própria e por uma graça, ao observar a árvore, eu seja levado a entrar em relação com ela; ela já não é mais um ISSO. A força de sua exclusividade apoderou-se de mim.Não devo renunciar a nenhum dos modos de minha consideração. De nada devo abstrair-me para vê-la, não há nenhum acontecimento do quel devo me esquecer. Ao contrário, imagem e movimento, espécie e exemplar, lei e número estão indissoluvelmente unidos nessa relação.Tudo o que pertende à árvore, sua forma, seu mecanismo, sua cor e suas substâncias químicas, sua "conversação" com os elementos do mundo e com as estrelas, tudo está incluído numa totalidade. A árvore não é uma impressão, um jogo de minha representação ou um valor emotivo. Ela se apresenta "em pessoa" diante de mim e tem algo a ver comigo e, eu, se bem que de modo diferente, tenho algo a ver com ela.Que ninguém tente debilitar o sentido da relação: relação é reciprocidade.Teria então a nossa árvore uma consciência semelhante à nossa? Não posso experienciar isso. Mas quereis novamente decompor o indecomponível só porque a experiência parece ter sido bem sucedido convosco? Não é a alma da árvore ou sua dríade que se apresenta a mim, é ela mesma."


- "O homem não é uma coisa entre coisas ou formado por coisas quando, estando eu presente diante dele, que já é meu TU, endereço-lhe a palavra-princípio. Ele não é um simples ELE ou ELA limitado por outros ELES ou ELAS, um ponto inscrito na rede do universo de espaço e tempo. Ele não é uma qualidade, um modo de ser, experienciar, descritível, um feixe flácido de qualidade definidas. Ele é TU, sem limites, sem costuras, preenchendo todo o horizonte. Isto não significa que nada mais existe a não ser ele, mas que tudo o mais vive em sua luz.
Assim como a melodia não se compõe de sons, nem os versos de vocábulos ou a estátua de linhas, a sua unidade só poderia ser reduzida a uma multiplicidade por um retalhamento ou um dilaceramento, assim também o homem a quem digo TU. Posso extrair a cor de seus cabelos, o matiz de suas palavras ou de sua bondade; devo fazer isso sem cessar, porém ele já não é mais meu TU.(...) O homem a quem digo TU não encontro em algum tempo ou lugar. Eu posso situá-lo, sou, aliás, obrigado a fazê-lo constantemente, mas então, ele não é mais um TU e sim um ELE ou ELA, um ISSO.O TU encontra-se comigo por graça; não é através de uma procura que é encontrado. Mas endereçar-lhe a palavra-princípio é um ato de meu ser, meu ato essencial.O TU encontra-se comigo. Mas sou eu quem entra em relação imediata com ele. Tal é a relação, o ser escolhido e o escolher, ao mesmo tempo ação e paixão. Com efeito, a ação do ser em sua totalidade como suspensão de todas as ações parciais, bem como dos sentimentos de ação, baseados em sua limitação, deve assemelhar-se a uma passividade.
A palavra princípio EU-TU só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade. A união e a fusão em um ser total não pode ser realizada por mim e nem pode ser efetivada sem mim. O EU se realiza na relação com o TU; é tornando EU que digo TU.Toda a vida atual é encontro.A relação com o TU é imediata. Entre o EU e o TU não se interpõe nenhum jogo de conceitos, nenhum esquema, nenhuma fantasia; e a própria memória se transforma no momento em que passa dos detalhes à totalidade. Entre EU e o TU não há fim algum, nenhum avidez ou antecipação; e a própria aspiração se transforma no momento em que passa do sonho à realidade. Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os meios são abolidos acontece o encontro.(...) O instante atual e plenamente presente, dá-se somente quando existe presença, encontro, relação. Somente na medida em que o TU se torna presente a presença se instaura.O EU da palavra-princípio EU-ISSO, o EU, portanto, com o qual nenhum TU está face-a-face presente em pessoa, mas que é cercado por uma multiplicidade de conteúdos tem só passado, e de forma alguma presente. Em outras palavras, na medida em que o homem se satisfaz com as coisas que experiencia e utiliza, ele vive no passado e seu instante é privado de presença. Ele só tem diante de si objetos, e estes são fatos do passado. Objeto não é duração, mas estagnação, parada, interrupção, enrigecimento, desvinculação, ausência de relação, ausência de presença. O essencial é vivido na presença, as objetividades no passado.
Relação é reciprocidade. Meu TU atua sobre mim assim como eu atuo sobre ele. O mundo do ISSO é coerente no espaço e no tempo.
O mundo do TU não tem coerência nem no espaço nem no tempo.
Os momentos de encontro com o TU se manifestam como episódios singulares, lírico-dramáticos, sem dúvida, de um encanto sedutor, mas que, no entanto, nos induzem perigosamente a extremos que debilitam a solidez já provada, e deixam atrás deles mais questões que satisfações, abalando nossa segurança. Eles não são só inquietantes, mas indispensáveis.
Por que devemos, após esses momentos, voltar ao "mundo" do ISSO, por que não permanecer no TU? (...) E com toda a seriedade da verdade, ouça: o homem não pode viver sem o ISSO, mas aquele que vive somente com o ISSO não é homem."

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- Trechinhos mágicos de 'Eu e Tu', de Martin Buber.
Desde que li este livro, me apaixonei pela definição das relações humanas de Buber, mas contraditoriamente, venho à procura desse Tu... Então eis que a vida esfregou na minha cara o quanto ele estava certo quanto à inútil procura (mas inevitável), e o Tu me encontrou sem nem ao menos um dos dois procurar...
Nada define melhor certos momentos do que Eu e Tu, figura e literalmente falando, amor...

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ao Senhor Inconsciente...




Nota.
- Há muitas interpretações e importâncias diferentes para os sonhos no geral, e pesadelos... sejam interpretações simbólicas, religiosas, culturais... Explicações mirabolantes e sem fundamento algum do tipo "sonhou com morte? Ah, isso significa que você vai viver muito" não fazem bem o meu tipo, de pessoa cética. O mais plausível seria a psicanálise de Freud que causou revolução nessa área ao estudar os sonhos... (argh, estou citando Freud no meu blog! mas fazer o quê, o cara manjava! rsrs...) São manifestações do nosso inconsciente quando nossa censura está em nível baixo... Ok, explicado, tudo lindo, tudo ótimo... Eaí? Já sei o que são, como se formam, mas não gosto dos pesadelos. Não os retiraria da minha vida porque alguma função psíquica eles têm, e não quero bagunças mais ainda aqui dentro (rs), mas não gosto, não gosto e não gosto! Assim mesmo, como criança birrenta que fica emburrada se lhe chamam atenção, mas depois continua a saracutiar até tomar outra bronca... A carta. "Poxa, Sr. Inconsciente, alivia vai! Pesadelos que vão e voltam, sustos na calada da noite, medo pela manhã e atenção dispersa durante o dia... O Sr. nunca me castigou desta forma, sempre me "presenteava" com alguns pesadelos aleatórios e meio a muitos sonhos que para mim, Consciente, não fazem sentido, e assim era ótimo! Borrões, flashes sem nexo, histórias sem começo nem meio e muito menos fim... Ah, isso são sonhos! Eu descansava nessa época e dava até mais tempo para o Sr. extravasar sua criatividade em mim, lembra? Mas, e agora? Sugiro que resolvamos isso o quanto antes, porque creio não ser vantagem nem a mim, nem ao Sr. O pior é que me conhece como ninguém mais, e sabe meus pontos fracos... E fica insistindo neles noite após noite... Crueldade pura, me desculpe! O senhor, Inconsciente filho-da-mãe, anda mais para Freddy Kruegger do que qualquer outra coisa! Sei que o Sr. anda cansado e estressado com tanta coisa aí, mas também não anda fácil para mim, então, que tal uma trégua? Não adianta relutar, você precisa de mim como preciso de você, mas minha paciência está se esgotanto e não será bom para ninguém se permanecermos nessa DR por muito tempo... Espero que reconsidere suas brincadeirinhas noturnas e tenha mais respeito comigo, Sr. Inconsciente."

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Lembranças...

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"Nada me afeta, nada me importa, nada faz sentido e nada faz diferença... Não há mais nada que se fazer aqui. Tentei, tentei e tentei... é claro que é possível se tentar mais do que isso, mas não estou disposta a correr o risco... posso pôr um fim nisso de modo muito mais rápido e eficaz... Posso fugir o mais longe que a ciência poderia me levar... ainda sim seria insuficiente... aquilo que fujo está mais próximo do que pensei, mas não consigo encontrar... Minha fuga é muito mais que material... necessito atingir outro estado, num último lampejo de esperança... Como será que é?
O que há, afinal de contas, depois daqui, se é que há de fato alguma coisa... Será que dói? Enfim, não importa, descobrirei mais cedo ou mais tarde mesmo... Ou não. Mas isso não vem ao caso. Não sou capaz nem ao menos de sentir tristeza ou raiva. Não sinto nada. Absolutamente nada em parte alguma. E isso mesmo devia doer, mas não o faz. Não quero isso mais. Quero sentir. SENTIR. De uma forma ou de outra, não existo senão sinto.
Não. Espere. Sinto sim uma única coisa. Desespero. Nada mais. Nem vontade de dormir até mais tarde, de comer um Big Mac, de zombar do irmão mais novo... Nada. Somente o mais genuíno e completo desespero. Desespero por sentir, por brigar, amar, odiar, dar risada... Mas chega de esperar que venha sozinho..."